O Silêncio de Dionisio
Do século XX que se despediu com os seus sepultamentos, uma única verdade aflora: dizer, confessar, colocar na ordem do discurso e do jogo da palavra enquanto exercício político tornou-se uma arma. Não somente a coerção e o policiamento, típicos das sociedades burguesas, e por tantas vezes colocadas nas pautas das ciências. Não mais a censura onde esperaríamos que ela estivesse. Não mais os poderes tirânicos e as suas Ideologias, mas o silêncio e suas especificidades. Palavra que se sepulta antes de ser dita. Paradoxo da modernidade: como em uma época em que se fala tanto das possibilidades de amplitude do discurso, colocando-o nos desejos e nos lábios das massas, o não-dito se apresenta sob a forma de tortura?
Ao escrever coloco-me diante de uma centelha, e todo um aparato discursivo é colocado à minha disposição. Os cenários dos confessionários das igrejas, das salas de psiquiatria, dos médicos inquisitivos e dos jornais que se desmancham em críticas à sociedade, pela sociedade, se deslocam para novos aparatos de tecnologias. Por onde começar, o que dizer e o que deixar de lado? Novamente, o herói “trágico” sai de cena. Dionísio, e não Deus, ao contrário do que Nietzsche imaginava, está silenciado, e só no Século das Crises, como bem definiu Eric Hobsbawm, sentimos o fétido cheiro de seu sepulcro.

Dionisio.
Tudo que é sólido desmancha na passarela…
Paris, 27 de fevereiro de 2007, a modelo russa Sasha Pivovarova surge na passarela da Semana de Moda da capital francesa, com um sapato preto pesado, meia calça cinza e sobrancelhas brancas. Contrastes com o vestido colorido, inspirado no keffiyeh (lenço árabe). Críticos de moda e jornalistas decretam em uníssono: É o novo multiétnico! Pretensioso e paradoxal, o estilista Nicolas Ghesquière a frente da Balenciaga faz jus à engrenagem que mantém a moda como a atual ciência do sonho. Antecipação de uma “revolução árabe” – com pitada francesa e mercantilista – no plano do imagético e do simbólico.
Na concepção da esquerda marxista, o termo revolução está intrinsecamente relacionado com a tomada de poder, com a mudança estrutural do sistema, seja na ordem social, econômica, cultural e dos costumes. É antes de tudo, a troca da classe social que comanda o país. No pensamento leninista, uma revolução só ocorre quando duas forças coexistem: as objetivas e as subjetivas. A primeira nasce das questões relacionadas à materialidade da vida das pessoas, e a última possui uma irmandade direta com a necessidade de uma liderança política, capaz de causar a “consciência nas massas”. Para o sociólogo francês Alain Touraine, a subjetivação é: a construção, por parte do indivíduo ou do grupo, de si mesmo como sujeito. Nos novos movimentos sociais – aqueles que, além de vinculados a dialética da luta de classes, constituem recentes fronteiras e novas construções históricas dos direitos fundamentais e humanos – a subjetivação pode ocorrer no contato com outros sujeitos, por meio de intervenções de mediadores, práticas educativas e lúdicas.

Balenciaga F/W 07.
O discurso do fast fashion ou a desconstrução do luxo

A história da moda sempre nos revelou as possibilidades de termômetros das convulsões ou transformações sociais. Seja em sua recente, e mais corriqueira aceitação, de que a moda tal qual a conhecemos hoje, reflita um progresso do discurso da Indústria de Consumo, do Mass Media ou do capitalismo recente: a Ideologia do neoliberalismo; ou seja, ainda, o espectro de atenuação das diferenças entre as classes sociais.
Acessibilidade ao luxo para uma parcela mínima da sociedade, e aceitação das tendências já obsoletas pelas classes baixas. Mas será que em tempos de fast fashion esse discurso se valide enquanto dispositivo no jogo de espelhos que a moda sempre se propôs?
Quem acredita na “imprensa”?
Em tempos de estupidificação da Ideologia e o apontar incessante para uma nova bipolarização do mundo, entre capitalismo selvagem e a possibilidade de socialismo, o pensador alemão Karl Marx é novamente invocado com a sua teoria da luta de classes e de materialismo histórico. Desta vez, o pensamento “O capitalismo gera o seu próprio coveiro”, não se trata de uma alusão fetichista de teóricos, comunistas e marxistas, em busca de uma revolução. Muito menos uma apropriação de ideias, para justificar a atual crise do capitalismo. Ao contrário do que imaginava o pensamento único, as paredes do muro ainda não caíram.
Detentora de poderes, a Imprensa – invenção da Idade Clássica ou Moderna – surge em um momento de consolidação da Ideologia burguesia. Instrumento próprio de saberes é o projeto-sujeito da validação dos discursos, seja no plano das ideias, da política, da economia, da cultura, da moralidade e da ética coletiva. Neste sentido, é também, apesar dos paradoxos, responsável pela consolidação das “democracias”, das repúblicas e do Estado de Direito, seja em momentos históricos específicos de servidão ao interesse público, ou aos interesses particularizados, de grupos ou de oligopólios.
Sem considerar, a priori, a importância atual da Internet, das redes sociais e das novas tecnologias de comunicação – experimentos avançados do capitalismo moderno – o foco da discussão recai sobre o papel da Imprensa, o seu caráter e gênese autoritário. Para avançarmos no debate, será necessário o entender e o distanciamento, entre o papel real da Imprensa, e a direção que os grandes grupos de comunicação tomaram desde o advento da supremacia norte-americana.

Cultura para todos: São Paulo é de fato uma cidade democrática?
O discurso corrente entre os entusiastas da “modernidade e do progresso” é que São Paulo é uma cidade culturalmente democrática. Fator, aliás, que impulsiona sua diferenciação e sua média, diante de outras capitais. Podemos falar realmente, que a cidade exerça o Estado de Direito, sob a perspectiva e a propaganda de “Cultura para todos”? E o que afinal, mobiliza setores da sociedade, que buscam no debate, desejos de rupturas? No vocabulário neoliberal, conseqüentemente paulistano, Cultura para todos significa o acesso comum, imediato aos aparelhos do Estado e facilitador ao consumo da arte: gratuidade, acessibilidade, locomoção das periferias para o centro e serviços com opções. Para os intelectuais e os amantes das Belas-Artes: fruição, reflexão, pensamento e emoção. Podemos analisar Cultura sob esta perspectiva em um regime formal da lei, da Constituição e dos princípios dos Direitos Humanos? Em uma metrópole onde as carências se particularizam, e não se universalizam, criando assim, a aparência de participação, deveres e direitos cumpridos, as utilizações dos aparelhos se efetivam de quais maneiras?


































