Cinética dos Manequins

O quadro se interna e se mumifica na exposição absoluta, tudo a partir de um desfile vaidoso, entre o tédio cotidiano e o delírio estrelar de corpos inanimados em sua peculiar beleza, vitrificados pelo tempo/duração, catatonizados, aspirados e sexualizados em espera e fulgurância, postos também plenos de melancolia, êxtase e dança: pose.
Trick or Treat

‘Witches… All of them witches!’
Rosemary Woodhouse
Aproveitando o clima Gagaween dos últimos dias e a proximidade com o Halloween no próximo dia 31 segue abaixo uma seleção de alguns dos títulos interessantes para este final de semana e a data propriamente dita, a maioria visando escapar daquele já conhecido repertório esperado anualmente. Prepare o ponche de coloração sanguínea e sua melhor fantasia.
Premonição 5

“I close my eyes
Only for a moment
And the moment’s gone
All my dreams
Pass before my eyes, a curiosity
Dust in the wind
All they are is dust in the wind”
‘Dust in the Wind’, Kansas
TANATOLOGIA DOS FUNNY GAMES
Mais do que um filme de horror ou uma improvável e irônica comédia de gosto duvidoso ‘Premonição 5’, de Steven Quale encerra a série iniciada em 2000 por James Wong refletindo um curioso estado do espectador, cada vez mais excitado pelas pirotecnias da destruição do corpo visual (ainda mais numa exibição em IMAX 3D como foi o meu caso).
Io Sono L’Amore

AMO ERGO SUM
A máxima de René Descartes sobre o pensamento e a existência é deslocada por Luca Guadagnino para o campo sentimental, transferindo a filosofia de sua parte intelectual para transformá-la num silogismo emocional provado (literalmente) em todos os sabores e intensidades. Se para o filósofo a compreensão de sua existência vinha a partir da dúvida seguida ao questionamento e reflexão sobre ela, no filme de Guadagnino a tomada de consciência vem através da paixão (mais até do que do amor propriamente dito) e posteriormente da loucura, o desapego e abandono por tudo e todos.
Homem ao banho

O MOLDE E O PREENCHIMENTO
Se existe algo que permeia intensamente a recente e bastante apreciada filmografia de Christophe Honoré é a relação entre amor e desejo, suas reuniões e separações que bem a moda dos franceses, ainda mais pelo seu particular resgate maneirista da Nouvelle Vague, faz incidir sobre sua obra um grande jogo de relações que se testam. Na brincadeira de Honoré os afetos percorrem um jogo de sorte ou revés arriscando sentimentos e suas próprias individualidades, não importando o tipo de envolvimento: laços familiares, amizades, parceiros sexuais, amorosos, qualquer coisa. É sempre um jogo perigoso que lança os elementos e eventualmente os trocam, os embaralham, reposicionam para o bem ou para mal dos corações e corpos que participam.
Melancolia

“É na imensidão dos Céus que se delineia o Objetivo puro que corresponde a um Visual puro. É pelo movimento regular dos astros que se regula o Destino. Se alguma coisa é fatal em nossa vida, é porque uma estrela nos domina e nos arrasta.”
Gaston Bachelard.
E LARS VON TRIER ‘DES FAZ’ O MUNDO
Não é de hoje que Lars Von Trier sempre articulou seus filmes de acordo com uma lógica de controle, sendo sua direção o correspondente mais expressivo de comando e superioridade. Dinamarquês como Carl Theodor Dreyer, talvez exista aí uma herança religiosa e metafísica incrustada nas duas linhagens, apesar de ser uma heresia, pra ficar no terreno do divino, comparar o cinema e cada um dos realizadores.
Um Lago

Je ne parlerai pas, je ne penserai rien,
Mais l’amour infini me montera dans l’âme ;
Et j’irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par la Nature, heureux- comme avec une femme.
Arthur Rimbaud, ‘Sensation’
TEMPERATURA PRIMITIVA
Uma das questões mais recorrentes na feitura e apreensão de um filme é aquela voltada à história. A história, em minúsculo mesmo, mas ironicamente tão poderosa quanto uma entidade por fazer com que espectadores (e produtores) possam apontar o dedo para a tela e ao realizador da obra pela condenação do crime do não contar. Já que fazer um filme é (ou pode ser) contar uma história, dentro de uma gama extensa de outras opções e definições, por favor, a questão a ser pensada muitas vezes recai muito mais em como ao invés de o que contar. O embate entre forma e conteúdo mais uma vez restabelece uma série de paradigmas e paradoxos mostrando que em determinados projetos um tende a pedir a existência do outro e vice versa, mesmo que em casos particulares, e são muitos, exista uma tendência maior a pender mais para um lado do que para o outro.
2 ou 3 coisas que eu sei dela

“Qu’est-ce que l’art? Formulaire de devenir le style, mais le style est l’homme, donc l’art est l’humanisation des formes.”
Narrateur (Jean Luc Godard)
LICHTENSTEIN POLITIQUE
Recentemente foi lançado um vídeo para divulgar a parceria entre a linha The Generic Man com a Comme des Garçons Shirt que possuía do seu começo ao fim uma série de referências a pelo menos três filmes de Godard: ‘Vivre as Vie’, ‘Une femme mariée: Suite de fragments d’un film tourné en 1964’ e ‘2 ou 3 choses que je sais d’elle’. O fato de remeter especificamente a este terceiro, principalmente por fazer uso do plano da xícara de café, provavelmente o melhor e mais emblemático do filme, me fez repensar esta obra pouco explorada da filmografia do cineasta.
Super 8

REC INDUSTRIAL
Há uma lógica em ‘Super 8’ sobre tudo aquilo que é maquinal, reprodutivo ou funcional que acaba por reverberar nele todo, ainda mais se pensarmos que todo filme é inevitavelmente o registro inconsciente de sua realização, um making of intrínseco presente na criação de suas ‘imagens oficiais’( termo que serve bem à essa narrativa em especial). Tal relação aparece tanto mais direta e brutalmente explícita ou então disfarçada, camuflada por metáforas mais ou menos aparentes em outros momentos. Essas idéias ou palavras-chave, dependendo da preferência, aparecem de diversas maneiras e o próprio surgimento do filme enquanto projeto cinematográfico vem de uma dessas razões. Todos voltam a ser crianças, mesmo na fábrica. Sonhos e trabalho são um só.






































