Shame

Shame

Física do Estado Sólido

Antes de qualquer psicologismo moralizante ou machismo obcecado, ‘Shame’, de Steve McQueen nos coloca diante de um filme rigorosamente físico. A rigidez, inclusive literal, da palavra se coloca tanto em termos superficialmente reconhecidos a partir da lógica corporal (e humana) como também de uma correlação conceitual da física enquanto ramo da ciência.

 

Rubber

Rubber Poster

“Everybody comes to Hollywood
They wanna make it in the neighbourhood
They like the smell of it in
Hollywood
How could it hurt you when it looks so good?
‘Hollywood’, Madonna

Do respeitável público a puta que o pariu

Qual seria o espaço do espectador? Este ser individual ou coletivo que reunido numa situação específica tende a esperar e receber, mesmo que de maneira ativa em seus processos mentais ou sensoriais, o fluxo direcionado de certas informações, situações, imagens. Imagens aprisionadas, espectador aprisionado. Ao menos no cinema, em seu espaço (agora rigorosamente físico) a graciosa ironia de que as imagens ou o mundo uma vez aprisionado pela câmera, pelo enquadramento irão ser libertados durante a sua recepção, assim como seus espectadores, presos em suas poltronas até que o fim do filme os livre das amarras de sua narrativa.

 

O Artista

“O cinema sonoro inventou o silêncio.”

Robert Bresson ‘Notes sur le Cinématographe’, 1975

Mimetismo

Nada mais anacrônico do que em tempos de grande urgência de realidade, seja pelos dispositivos técnicos digitais ou pela falência de uma ficção cada vez mais nutrida de tramas com tendências documentais ou, em outra via, de espetáculos verborrágicos de cortes, explosões e terceiras dimensões um filme ‘mudo’ como ‘O Artista’ esteja reverberando ecos premiados pelas telas mundiais.

 

Pina



“Eu sou o espaço onde estou.”

Gaston Bachelard

Opus Alquímico Anatômico


Um filme como ‘Pina’ revela à crítica, mais até do que aos espectadores, a dificuldade em dar conta através de palavras ou mesmo de impressões orais a reação objetiva ou subjetiva diante de uma obra feita para os sentidos. Longe de experimentações cognitivas ou abstracionismos o filme de Win Wenders se coloca entre a música e o corpo, elementos que intrínsecos a qualquer cinema se encontram aqui entre a engenharia sensorial de Walter Ruttmann e a ciência artística e física dos experimentos fílmicos de Muybridge e Marey.

 

Sleeping Beauty



“O mais profundo é a pele.”
Paul Valéry

Assepsia Sexual



Em A Bela Adormecida uma jovem e bela princesa adormece a partir de uma maldição num sono profundo e eterno até que um príncipe apaixonado venha até seu leito de morte e sonho e deposite em seus lábios um beijo de puro amor. A versão mais conhecida do conto é a feita pelos famosos Irmãos Grimm, publicada em 1812, na obra Contos de Grimm sob o título ‘A Bela Adormecida’ ou ‘Dornröschen’ no original.

 

A Ficção (?) do Controle



La Nuit

“Caresse l’horizon de la nuit, cherche le coeur de jais que l’aube recouvre de chair.
Il mettrait dans tes yeux des pensées innocentes, des flammes, des ailes et des verdures que le soleil n’inventa pas.
Ce n’est pas la nuit qui te manque, mais sa puissance.”

Paul Éluard ‘Capitale de la Douleur’, 1926



A idéia constitutiva de uma conspiração, o elemento invisível que permeia, persegue e atenta com a naturalidade da vida sempre esteve presente no imaginário e na própria dita realidade vivida. Teorias e desaparecimentos sempre foram mote e processo tanto para a vida quanto a criação de uma vida ou de várias.

 

Anna



“Un jour comme un autre
Il viendra vers moi
Me dire ‘je t’aime Anna, Anna’, Anna
Ce jour-là tout changera”
‘Um jour comme um autre”, Anna Karina

E o Cinema criou a Star



É de costume atribuir, grosso modo, o surgimento do primeiro plano a Griffith, por muitos considerado o pai da gramática cinematográfica clássica, aquela responsável pela imersão e invisibilidade da própria montagem dentro de uma narrativa fluída. Mas o que será que fez Mr. Griffith a pensar em colocar a câmera mais próxima de seus atores? Provavelmente estava a procura de outra coisa que agora chamamos de outro modo, algo que não filmava apenas as coisas, mas sim as relações entre elas. Talvez não quisesse apenas ver alguém mais de perto, mas unir uma coisa vista de longe com outra vista de perto. Porém mais tarde o cinema falado mostraria que a invenção do close foi responsável certamente pelo aparecimento da estrela.

 

Os Amores Imaginários



“Bang Bang
io sparo a te
Bang Bang
tu spari a me
Bang Bang
e vincerà
Bang Bang
chi al cuore colpirà”
‘Bang Bang’, Dalida

Eros Invisível



 

Os Sapatinhos Vermelhos



“je danse, donc je suis.
tu danses et je te suis.
mais si je te suis,
ce nést pas pour ce que tu penses,
c’est pour la danse,
pas pour la vie.
c’est pour la danse,
pas pour la vie.
c’est pour la danse,
pas pour la vie.”
‘Je danse Donc Je Suis’, Brigitte Bardot

Plié, pule (e sangre)



 

A Pele que Habito



Cicatriz Interior



Em determinado momento de ‘A Pele que Habito’, o personagem de Antonio Banderas avisa para não se olhar apenas as superfícies. A frase que poderia ser proferida em tom de aforismo é dita de maneira bastante ligeira dentro de um diálogo casual, mas obviamente revela claramente o comentário mais adequado sobre o filme. Num dos seus filmes mais desprovidos da abundancia cromática já usual, que ao longo do tempo se tornou inclusive um adjetivo para determinadas tonalidades e utilizações de cor, Almodóvar pinta uma superfície (vale ressaltar o quanto de pictórico são seus planos e sua decupagem) mais fria e cautelosa variando de tons pastel a sombras e aspectos mais frios.